Allemansrätten: o direito de acesso à natureza

 

Hoje quero falar de uma das coisas de que mais gosto na Suécia: o direito público de acesso à natureza.

A Suécia, assim como outros países escandinavos,  possui uma regulamentação sobre o uso público de espaços naturais que garante à população o direito de realizar atividades ao ar livre gratuitamente, mesmo em terrenos particulares.

Os parques, florestas, lagos, ciclovias, trilhas, são reconhecidos como bens públicos que estão disponíveis para usufruto comum. E isso é uma das coisas de que mais gosto neste país, a possibilidade de estar na natureza sem precisar pagar entrada.

Dentro do Allemansrätt (Direito ao acesso público) é permitido:

  • acessar qualquer espaço natural, incluindo propriedades privadas, mas excluindo áreas cultivadas, residências particulares e o entorno de 70 metros de uma residência;
  • passar a noite nesses espaços, inclusive acampando com barraca;
  • colher flores, cogumelos e frutos silvestres;
  • dirigir, andar ou pedalar por estradas privativas, a não ser que haja sinalização que o impeça;
  • nadar em qualquer lago, praia e rio;
  • pescar em um dos 5 grandes lagos onde isso é permitido.

Existe uma estrutura nas florestas e reservas naturais que também é de uso público e gratuito.

Exemplo de abrigo. Fonte: Wikimedia.

Por 4 vezes eu já passei a noite em abrigos, chamados windshelters em inglês ou vindskydd em sueco, onde além de proteção contra o frio e o vento, também havia banheiro seco e lareira com grelha. Só precisei levar o básico: saco de dormir, comida e água. Em alguns desses lugares precisei levar madeira, mas na maioria havia madeira disponível no abrigo.

Além da possibilidade de usufruir do bem-estar que estar na natureza me proporciona, poder aproveitar desses espaços me traz uma grande satisfação de saber que isso está disponível para a população de uma forma acessível e gratuita. Eu não olho para a natureza como recurso a ser utilizado, nem faria sentido preservar a natureza se ela for privilégio apenas de alguns. O direito de acesso público à natureza permite conhecer um lado da Suécia que eu valorizo muito.

A seguir vou deixar algumas fotos dessas micro aventuras para inspirá-los a fazer o mesmo. Acender uma fogueira com amigos e acordar na floresta é um dos meus programas favoritos!

 

 

Vir para a Suécia com cidadania europeia: minha experiência

 

Como outros vários brasileiros, eu tenho na família algum antepassado que migrou da Europa para o Brasil no fim do século XIX, início do século XX. No meu caso, meus bisavós por parte de pai eram italianos, o que me garantiu a dupla cidadania.

Um dos motivos que me incentivou a procurar programas de mestrado na Suécia foi que a educação superior aqui é gratuita para todos os cidadãos europeus (de países da UE ou do Espaço Econômico Europeu). Na minha primeira busca por mestrados em Estudos da Infância, eu encontrei programas em Portugal, Inglaterra, Irlanda, Finlândia, Suécia, Alemanha e apenas os países escandinavos ofereciam programas totalmente gratuitos e também estendiam a gratuidade para os cidadãos de países da UE.

Além disso, a cidadania europeia também garante o direito de residência, o que significa que qualquer pessoa com cidadania da UE pode se mudar pra Suécia para procurar emprego aqui, mesmo sem vínculo prévio de estudo ou trabalho. Eu vim com o vínculo com a universidade, mas de qualquer forma não precisaria de visto para entrar no país. Para quem vem para a Suécia para procurar emprego, mesmo sendo cidadão europeu, a permissão de residência vale por 3 meses.

Essa é a mistura do Brasil com a Coréia do Sul e a Itália.

Meu primeiro registro na população sueca foi com o chamado Coordination Number, um tipo de registro para pessoas que tem comprovação de residência na Suécia por até 1 ano. Esse é o registro para pessoas que estudam programas de até 60 créditos ou pessoas que trabalham por hora, meio período ou cujo contrato não ultrapassa 11 meses. Com esse registro eu pude abrir conta no banco, mas não tinha minha identificação virtual, que dá acesso, por exemplo, ao Swish (método de pagamento online, tipo o PIX sueco).

Quando prossegui para o segundo ano do mestrado, eu solicitei o personnummer, outra categoria de registro na população sueca, que por sua vez dá acesso ao serviço de identificação bancária virtual, ao Swish e também me registra no sistema de saúde daqui. Vale ressaltar que os europeus que possuem o cartão europeu de saúde têm acesso ao sistema de saúde nas mesmas condições e com os mesmos preços dos cidadãos suecos.

Como eu não possuo o cartão europeu de saúde, por nunca ter morado na Itália ou em outro país da União Europeia, uma das exigências para a aplicação para o registro como residente na Suécia foi um seguro de saúde com cobertura de até 1 milhão de euros. Em 2020, o valor da aquisição do seguro era de aproximadamente 6000 reais, cuja maior parte obtive de volta quando fiz o cancelamento.

A Suécia é o destino de muitos cidadãos de outros países da União Europeia e a LiU está cheia deles. São inúmeros alemães, espanhóis, franceses, gregos… Muitos vêm como intercambistas de graduação pelo programa Erasmus e depois retornam para o mestrado.

Devido ao número imenso de estrangeiros, pela universidade e pela cidade de Linköping é muito comum ouvir gente falando em outros idiomas. Isso foi uma boa surpresa para mim, que apesar de imaginar o programa com certa diversidade, não imaginava que conheceria tantas pessoas de outras nacionalidades, nem que haveria tantas pessoas migrando para a Suécia de outras regiões do continente.

Aproveito o post para lembrar que cidadãos de países da União Europeia ou do Espaço Econômico Europeu podem se candidatar na segunda rodada de admissão para os programas de mestrado, que se iniciou em 15 de março e vai até 15 de abril de 2021.

Depois de se inscrever nos programas escolhidos, nessa segunda rodada o prazo para envio da comprovação de cidadania é 03 de maio e a submissão de documentos de comprovação de graduação e do nível de inglês vai até 21 de junho.

Os programas que aceitam inscrições na segunda rodada podem ser consultados na página https://liu.se/en/education.

Quaisquer perguntas sobre o processo de entrada no país com a dupla cidadania ou sobre a vida aqui, deixem comentários!

Abraços e boa sorte!

5 dicas para economizar na Suécia

A Escandinávia é conhecida por ser uma das regiões com o custo de vida mais alto do planeta. Como faz então a estudante brasileira de orçamento reduzido, para viver por essas bandas?

Vou compartilhar com vocês algumas dicas que aprendi ao longo do tempo.

1 ) Cartões de desconto para estudantes

Aqui na Suécia estudante tem desconto no transporte público e há muitas campanhas promocionais voltadas para estudantes em lojas, restaurantes e serviços. Ao se cadastrar nos cartões Mecenat ou Studentkort você passa a receber ofertas regulares, e muitas valem realmente a pena, como para contratar operadora de celular. Outra dica (para outros tempos sem pandemia) é se inscrever no ESN (Erasmus Student Network), cuja carteirinha dá desconto de 25% em passagens aéreas pela RyanAir.

2) Comprar de segunda mão e ficar de olho no Marketplace do Facebook

Tirando a arara de roupas da IKEA, todo o resto do meu quarto é de segunda mão. A cama e o tapete eu ganhei de alunos que estavam voltando pra casa ou se mudando. A estante de livros e a cômoda estavam anunciadas para doação nas redes sociais. A luminária de teto e os itens de decoração eu comprei usados, a partir de anúncios no Facebook. Estou sempre de olho no Marketplace do Facebook e nos grupos Köp & Sälj Linköping e ESN Linköping Flea Market, onde as pessoas doam e vendem coisas usadas.

A cultura de comprar objetos e roupas usadas na Suécia é muito grande, visto as grandes lojas de segunda mão que tem em todas as cidades, ótimas para roupas e móveis. As pessoas estão acostumadas e os produtos costumam ter muito bom estado.

Especialmente para os estudantes da LiU, existe uma loja estudantil de móveis usados, a Liu Secondhand, e uma livraria/sebo, a Campus Bokhandeln. Fiz um vídeo sobre essa loja para o IGTV: https://www.instagram.com/p/CME-4x7HmEn/.

3) Inscrever-se no programa de desconto de lojas e supermercados

Todos os mercados e diversas lojas possuem programas de fidelidade, nos quais você se cadastra e recebe promoções exclusivas. É uma ótima forma de economizar, comprando os produtos sazonais que estão com desconto.

4) Cozinhar em casa

Além da cultura de comprar de segunda mão, outro costume sueco é cada pessoa levar sua marmita para almoçar, tanto na universidade como nos locais de trabalho. Por aqui é regra os espaços terem cozinhas para as pessoas esquentarem suas marmitas e isso diminui bastante os gastos, visto que comer e beber em restaurante realmente não é barato.

Microondas em uma das cozinhas da LiU.

Em um outro vídeo para o IGTV, eu mostro algumas das cozinhas estudantis da LiU: https://www.instagram.com/p/CMDHrFpH82a/.

5) Onde comer e beber barato

Finalmente, se você vai comer fora, recomendo que aproveite os menus promocionais de almoço, o famoso “dagens lunch”, que geralmente oferece o melhor custo benefício. Assim você experimenta e uma refeição completa com salada, sobremesa e bebida nos restaurantes sem ter que deixar o olho ou o rim.

E até que você descubra qual o bar com a cerveja mais barata da cidade (que nunca será barata, haha), vale a pena ir nos pubs estudantis, onde os preços são mais baixos. Um coisa boa desses pubs é que geralmente cada estudante com carteirinha válida pode entrar acompanhado de um convidado que não seja estudante. Em Linköping os pubs estudantis são o KK, o HG, o Flamman e o Ville Valla.

Minha mensagem é: morar na Suécia é mais caro sim, mas menos do que eu imaginava.  Eu particularmente esperava gastar muito mais do que realmente gasto no dia a dia.

Pra finalizar, deixo vocês com esse hino do ABBA:

Abraços e até a próxima!

5 coisas pra você resolver antes de vir para a Suécia

Tjena, pessu! 😀

Passou no mestrado? Tá se preparando para vir pras terras geladas do reino da Rainha Silvia? VIVA!
Hoje o post vai com aquelas diquinhas que são súper úteis e as vezes óbvias, mas que valem a pena serem reforçadas. Se liga:



1) Faça check up no dentista

Dentista aqui não faz parte do sistema público de saúde e custa um olho. Pra ter uma noção, já vi casos de colegas que tiveram urgências odontológicas e preferiram voltar para o país de origem e tratar lá (Europeus, claro).

 

Imagem: Scientific American


2) Faça check up no médico

Aqui não existe check up. Exames de rotina só são feitos em alguns casos (como a colposcopia em pessoas que possuem útero). O sistema de saúde sueco opera em um modo de quase emergência devido a falta de profissionais da saúde, e as coisas são voltadas para despender do mínimo de recurso possível. Além disso, a abordagem da medicina aqui é no sentido de tratar doenças, então geralmente se vai ao médico apenas quando sente-se algo. Não existe chegar no Vårdcentral (central de saúde equivalente ao nosso postinho/UBS) e pedir um simples exame de sangue por conta própria sem passar pelo médico antes. Se, no caso, você queira fazer um exame para detectar ISTs,  por exemplo, é necessário ligar no 1177 e marcar o exame especificamente para isto, aí dá. Ah! Tome suas vacinas e traga o cartão internacional de vacinação. Nunca precisei aqui, mas melhor ter.

 

3) Traga seus medicamentos

Como Myung já nos contou em seu post “Estou indo para a Suécia, o que levar?“, alguns remédios cotidianos para nós no Brasil, podem não ser vendidos por aqui, pelo menos não sem prescrição. Anticoncepcional é um deles. Ibuprofeno, Paracetamol e vitaminas em geral são comuns e vendem até no mercado, mas dipirona ou um simples relaxante muscular, não. Eu trouxe floral, remédio pra rinite, alguns remédios naturais e Engov (sério).

Minha necessaire de remédios que trouxe do Brasil.

 

4) Deixe uma procuração no Brasil

A gente nunca sabe quando vai ter pepino pra resolver, né? Melhor se garantir e deixar pros pais, ou alguém de confiança, uma procuração para que possam fazer coisas por você. Sugiro verificar as regras para tal no seu banco, ou no órgão específico para qual você queira deixar a procuração. 

 

5) Abra uma conta em algum provedor de remessas

Pode ser Transferwise, Remessa Online,…Tanto faz. As taxas são menores que as dos bancos e a cotação geralmente é diária, não mensal, o que facilita na escolha de um dia em que a situação da moeda esteja melhor para a transferência internacional de dinheiro. Eu precisei de urgência e foi uma mão na roda! Chega em alguns dias e, no caso da Transferwise, se acompanha a situação da transferência no site.

 

Por hoje, é isso. Posso fazer uma parte 2 uma outra vez, o que acham?

Hejdå 

Comida: como encontrar ingredientes da culinária brasileira na Suécia

 

Morar em outro país leva muita gente a se aventurar na cozinha para tentar reproduzir pratos que no Brasil se encontra em qualquer esquina.

Felizmente, tem bem poucas coisas das quais eu fico passando vontade, porque em Linköping é bem fácil encontrar ingredientes que usamos na culinária brasileira. Só é preciso um pouco de tempo e alguns contatos com outros conterrâneos pra saber onde achar cada coisa. Espero que a lista a seguir facilite a vida dos leitores desse blog e dos recém-chegados!

Carnes

Nas imagens abaixo você consegue comparar os cortes de carne bovina no Brasil e na Suécia:

Fonte: Facebook

Para churrasco, picanha é “Rostlock med kappa”. Já nas carnes de porco, a linguiça atende pelo nome de “salsiccia” e a calabresa pode ser encontrada tanto como “kabanoss” ou “kielbasa”.

Grãos

A única coisa que não encontrei foi flocão de milho ou milharina pra fazer cuscuz nordestino. De resto, nas lojas asiáticas é fácil achar milho branco para canjica, granulado de tapioca que usamos para sagu ou dadinho de tapioca e também polvilho (tapiokamjöl), que serve para pão de queijo e pode ser hidratado para fazer tapioca.

Nas lojas africanas, gari ou kassavamjöl é a nossa amada farinha de mandioca e nos mercados árabes fin bulgur é o trigo para quibe. Também é bem fácil achar fubá (majsmjöl) e farinha de milho para polenta nos mercados árabes ou grandes supermercados suecos.

Frutas, verduras e leguminosas

Na mesma loja africana em que se compra a farinha, se encontra a mandioca, o inhame e a banana da terra.

Já vi chuchu em mercados asiáticos, mas não fiz muita questão de comprar. 😛

Quiabo é vendido congelado em grandes mercados, atende pelo nome de “okra” e a couve (grönkål), apesar de ser um tipo diferente da couve manteiga brasileira, é facilmente encontrada em qualquer supermercado maior.

O que não se acha fácil, infelizmente, é mandioquinha e palmito. Pra comer essas delícias tem que se planejar e pedir online nas lojas brasileiras de Estocolmo ou Gotemburgo, que entregam em toda Suécia.

De uma esfomeada para outros, espero que a informação seja útil!